Avançar para o conteúdo principal

O impacto das experiências na nossa trajetória.

“Preparo-me para ir trabalhar e a publicação está na rede há oito horas. Enquanto enrolo o cabelo, vou renovando a página. Até agora, 224 partilhas e 875 gostos. Visto o fato de lã preta, torno a renovar a página. Procuro os sapatos pretos debaixo do sofá, renovo a página. Prendo na lapela o crachá dourado com o meu nome, renovo. A cada vez, os números sobem e os comentários multiplicam-se.

 

-És tão forte. 

-És tão corajosa. 

-Que espécie de monstro faria isso a uma criança?

 

(...) Desço pelo escasso conteúdo público que ando a esmiuçar há anos, as fotos e as atualizações de vida, e agora, no topo, a publicação sobre Strane. Os números continuam a subir- 438 partilhas agora, 1,8 mil gostos, além de novos comentários, mais do mesmo. 

 

-Isto é tão inspirador.

-Admiro a tua força.

-Continua a contar a tua verdade, Taylor.”

 

 

 

Esta é a primeira parte da obra “Minha Sombria Vanessa”, escrita por Kate Elizabeth Russell, que nos apresenta a história da Vanessa, compreendida entre dois períodos da sua vida.

No primeiro, Vanessa Wye têm apenas 15 anos, e através da sua narrativa vamos acompanhando a sua experiência no segundo ano de Browick, num colégio interno.

Ela foi sempre uma adolescente solitária, que nunca se importava de estar sozinha. No entanto este vazio foi sendo lentamente “preenchido” por Jacob Strane, o seu professor de inglês, com quem Vanessa acreditava partilhar a mesma mente. E antes que tome consciência, iniciam uma relação, em que ela acreditava ser amada. Esta crença vai permanecer com ela. Nunca vai ser posta em causa, porque ele nunca o permitiu.

Já com 32 anos Vanessa descreve-nos esta relação da seguinte forma: “Quando eu e o Strane nos conhecemos, tinha eu quinze anos e ele quarenta e dois, quase trinta anos perfeitos entre nós. Era assim que eu descrevia a diferença na altura- perfeita. Adorava a matemática disso três vezes a minha idade. Ele amava-me tanto. Esforçou-se tanto para ser bom. Depreendo que serei aquela a quem há de recorrer, daqui a dez ou quinze anos, quando o corpo começar a ceder. Parece-me o fim provável desta história de amor”. Em adulta ela compara esta história a amor, um amor mútuo, que na verdade nunca foi recíproco. Porque não há amor numa história de abuso. 

A sua mente tornou-se de tal forma maleável às mãos de Strane, que ela perdeu o seu molde original. E é perante este cenário que acompanhamos a história de mais uma vítima de Strane. Taylor. Que vai despertar um movimento, em que Vanessa se vê encurralada e carente “queria que ele me tranquilizasse. Preciso que ele me diga outra vez que ela mente”.

Esta não é uma história verídica, mas retrata a verdade de muitas Vanessas que se mantêm silenciadas e incompreendidas. E Kate Russell tenta-as compreender, tenta dar-lhes voz, e ao entrarmos nesta história, entramos na mente da vítima, e é através deste trajeto que percebemos o quão importantes as nossas experiências são. Pois elas mudam-nos, definem a nossa trajetória e escondem a nossa verdade.



Maria Pereira 

 






 

 -Capa do livro- 

Caso estiverem interessados têm aqui o link :)

https://www.wook.pt/livro/minha-sombria-vanessa-kate-elizabeth-russell/24337943

 

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Origem da maneira de ser de cada um.

  Será que nascemos com a personalidade definida?  Será que nascemos com a personalidade definida? Esta é certamente uma questão hárdua de responder seja filosoficamente ou cientificamente.  Muitas pessoas acreditam que certos indivíduos ja nascem para ser pessoas amargas, violentas, calmas, simpáticas,etc..., já outras, acreditam que a personalidade de cada um é construída consoante as pessoas em seu redor, ou seja, se me rodear de pessoas alegres, tenho tendência a ser uma pessoa mais alegre, e vice-versa.  Cientificamente falando, não existe nenhum facto que apoie nenhuma destas teorias, mas podemos usar a psicologia/filosofia para o tentar compreender.  Pessoalmente, acredito que as pessoas/ambiente ao nosso redor tem total influência na nossa personalidade, umas pessoas sendo mais influenciadas que outras logicamente, acho que se temos amigos/familiares mais alegres, vamos ser pessoas mais alegres. Será que está na genética? Será que se o pai for uma pessoa...

A Neurociência de Damásio

  Dados Biográficos      António Damásio nasceu em Lisboa, em 1944. Licenciou-se e fez o doutoramento em Neurologia, na Universidade de Lisboa, tendo começado a desenvolver as suas pesquisas no Centro de Estudos Egas Moniz, no laboratório de investigação da linguagem. Vai para o EUA como investigador do Centro de Pesquisas da Afasia de Boston. Integra a Universidade de Iowa, dirigindo o Departamento de Neurologia do Comportamento e o Departamento Cognitiva e o Centro de Investigação da Doença de Alzheimer desta universidade.     É o estudo do comportamento de muitos dos seus doentes, com lesões cerebrais, que o leva a colocar um conjunto de hipótese inovadoras relativamente ao funcionamento de cérebro. Juntamente com a sua mulher, Hanna Damásio, e uma equipa de investigadores, desenvolveu trabalhos de pesquisa que o levam a analisar as consequências, no comportamento, de uma lesão nos lobos pré-frontais, decorrente de um acidente ocorrido em 1848. O fa...

O Behaviorismo

  Behaviorismo é uma teoria psicológica que objetiva estudar a  psicologia  através da observação do comportamento, com embasamento em metodologia objetiva e científica fundamentada na comprovação experimental, e não através de conceitos subjetivos e teóricos da mente como sensação, percepção, emoção e sentimentos.  A preocupação central de Watson foi afastar-se da psicologia tradicional, que tinha por objetivo o estudo da mente, da consciência, através da introspeção. Declara a necessidade de a Psicologia se constituir como ciência autónoma e objetiva, uma ciência natural e experimental. Embora não negando os estados mentais e a consciência, considera que não se podem constituir como objeto de estudo da Psicologia. São constituintes da vida pessoal de cada um, mas não objeto de uma ciência. Para ele, a Psicologia como ciência tem como objeto de estudo, o comportamento objetivamente observável – conjunto de respostas a estímulos R=f (s). O método de estudo segundo Wa...