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A Neurociência de Damásio

 


Dados Biográficos

    António Damásio nasceu em Lisboa, em 1944. Licenciou-se e fez o doutoramento em Neurologia, na Universidade de Lisboa, tendo começado a desenvolver as suas pesquisas no Centro de Estudos Egas Moniz, no laboratório de investigação da linguagem. Vai para o EUA como investigador do Centro de Pesquisas da Afasia de Boston. Integra a Universidade de Iowa, dirigindo o Departamento de Neurologia do Comportamento e o Departamento Cognitiva e o Centro de Investigação da Doença de Alzheimer desta universidade.


    É o estudo do comportamento de muitos dos seus doentes, com lesões cerebrais, que o leva a colocar um conjunto de hipótese inovadoras relativamente ao funcionamento de cérebro. Juntamente com a sua mulher, Hanna Damásio, e uma equipa de investigadores, desenvolveu trabalhos de pesquisa que o levam a analisar as consequências, no comportamento, de uma lesão nos lobos pré-frontais, decorrente de um acidente ocorrido em 1848. O facto de processos cognitivos como a percepção, a memória, a inteligência e outros se manifestarem em pleno funcionamento não assegurava um comportamento social e pessoal equilibrado. Esta constatação vai levá-lo a novas áreas de trabalho.


A Mente


  • O que é a mente? 
    A Mente é o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza humana. É um conceito utilizado para descrever as funções superiores do cérebro humana relacionadas à cognição e ao comportamento.

    

    António Damásio procura compreender a mente a partir do funcionamento do cérebro.        

    

    Contesta as concepções que, durante séculos, defenderam uma mente apenas orientada pela razão, independente do corpo, das emoções e dos afectos. Damásio rejeita o dualismo corpo-mente, afirmando que a mente é uma produção do cérebro.


    Para Damásio, assim como os nossos sentidos (a visão, a audição, o tato, o gosto e o olfacto) dão-nos a conhecer o mundo exterior através de processos de activação nervosa, as emoções são padrões de activação nervosa que correspondem a estados do nosso mundo interior. 


    Se vemos aproximar-se um cão com ar feroz, esta imagem vai activar o sistema nervoso simpático: o ritmo cardíaco fica acelerado, a respiração mais rápida, a tensão muscular aumenta, etc. Estas modificações corporais correspondem a uma emoção a que chamam medo. O nosso cérebro regista esta informação, que pode vir a ser utilizado mais tarde. As emoções são, portanto, representações cognitivas de estados corporais.


    Este é um dos mecanismos que levam Damásio a encarar o organismo como uma totalidade em constante interacção com os meios exterior e interior: o corpo, o cérebro e a mente agem em conjunto, porque são uma realidade única.




    Damásio vai desenvolver o conceito de um mecanismo que vai ter uma grande influência nas suas concepções e que constituiu uma das contribuições mais inovadoras: o conceito de marcador somático. 

São muitos os exemplos que mostram o valor adaptativo das emoções. O carácter que Damásio lhes atribuiu: são um instrumento para avaliarmos o meio, as situações e agirmos de forma adaptativa. Quer o meio interno, quer o meio externo, são fontes de desequilíbrios, de perturbações, que exigem respostas adaptadas, que exigem decisões. A decisão implica uma avaliação do mundo, que é acompanhada pelas emoções e pelos sentimentos. 


    As emoções e os sentimentos estão intimamente relacionados com a razão, são os alicerces da mente: integram os processos cognitivos e a capacidade de decidir, bem como a consciência de si própria.


    Concluindo, as emoções e os sentimentos são como orientadores, guias internos que nos permitem sentir os estados do corpo (e, assim, sentimos prazer ou dor, alegria ou tristeza, desejo, felicidade, etc.); são também sinais que servem de comunicação aos outros.


 

A Hipótese do Marcador Somático



    
António Damásio, neurocientista português, criou e define a hipótese do marcador somático como sendo um mecanismo pelo qual os processos emocionais podem enviesar o comportamento, particularmente, a tomada de decisão. 
    Assim, um déficit nos mecanismos neuronais das emoções prejudicam a tomada de decisão. Quando tomamos decisões, temos de avaliar o valor das opções disponíveis, usando os processos cognitivos e emocionais. Quando enfrentamos escolhas complexas e potencialmente conflituosas, podemos não ser capazes de decidir usando apenas os processos cognitivos, o que pode tornar-se sobrecarregado e incapaz de nos ajudar a decidir. Nestes casos, os marcadores somáticos assumem-se como preciosos “atalhos” que auxiliam na tomada de decisões.
    Os marcadores somáticos são associações entre estímulos reforçados, que induzem um estado afetivo fisiológico. Dentro do cérebro, os marcadores somáticos, acredita-se que são processados no córtex pré-frontal ventromedial (VMPFC). Quando temos que tomar decisões complexas e rodeadas de incerteza, os marcadores somáticos, criados pelos estímulos relevantes (estímulo emocionalmente competente), são “somados” para produzir um estado somático que influencia a decisão a tomar.
    Essa influência no processo de tomada de decisão pode ocorrer inconscientemente, através do tronco cerebral e striatum ventral, ou conscientemente, envolvendo um processamento cognitivo cortical superior. Damásio propõe que os marcadores somáticos direccionam a atenção para opções mais vantajosas, simplificando o processo de decisão. A “aquisição” de marcadores somáticos é realizada no córtex pré-frontal (recebe sinais de todas as outras regiões sensitivas nas quais as imagens são formadas, recebe sinais a partir de vários sectores biorreguladores do cérebro, representa categorizações das situações em que o organismo tem estado envolvido e tem a capacidade para decidir e raciocinar, porque está directamente ligado a todas as vias de resposta motora e químicas disponíveis no cérebro).
    As alterações fisiológicas (por exemplo, a contracção muscular, frequência cardíaca, libertação de hormonas, postura, expressão facial, entre outros) ocorrem no corpo e são transmitidas para o cérebro, onde são transformadas numa emoção que transmite algo ao indivíduo sobre o estímulo a qual foi exposto. Com o tempo, as emoções (e as respectivas mudanças corporais) ficam associadas a situações específicas e a determinados resultados passados (memórias).

Conclusão


    Culminando um conjunto de investigações que, desde a década de 70 do século XX, vinham a ser desenvolvidas sobre o papel das emoções, Damásio produziu uma integração que corresponde a um marco importante nas neurociências e na Psicologia. A perspectiva interdisciplinar que acompanha as suas investigações e reflexões tem um objectivo: desvendar e compreender o que significa ser humano.


    A afirmação de que o cérebro e a mente constituem uma realidade una e a forma como as emoções fundamentais da Psicologia actual. A afirmação da base biológica da mente e o papel das emoções e dos sentimentos nos processos cognitivos, como a resolução de problemas e as tomadas de decisão, perspectivam, de uma forma, inovadora, as grandes questões da Psicologia. Ultrapassam, assim, as dicotomias mente-corpo, razão-emoção.

 

Cérebro, cultura e humanidade


Entrevista a António Damásio


 



Marina nº8
12ºD

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